terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Covardia

Covarde é esse conjunto de órgãos que carinhosamente chamamos de nós, esse bando de átomos que se diferencia dos outros por que pensa, e justamente por pensar cria da pior maneira. Tem instinto que é só instinto, humano não, age por instinto pensando pois tudo nesse corpo clama por razão. Suas células pensam tanto que chegam a criar doenças auto degenerativas. Esse organismo covarde que me faz acordar de pesadelo à uma e meia da manhã num dos poucos dias que eu fui dormir no horário dos corretos, por volta das dez da noite, e me faz escrever qualquer coisa que sirva na falta de analista.
Eu falo de um bando órgãos, agressivamente, com repulsa e me esqueço por mera tolice que sou dependente disso. Veja que interessante, a covardia é tão grande que no auge do pensamento queremos dominar nossa própria experiência carnal. Se fizesse contagem das minhas palavras saia muito mais raiva que amor, se fizesse contagem dos meus sentimentos saia muito mais amor que raiva. E eu ferozmente sento numa cadeira e olho para um pôster da Frida Kahlo buscando solução sem ter problema de fato.
E o cão que ladra pelos sacos plásticos da minha rua a essa hora, o que será que ele pensa? Será que ele pensa? E o barulho dos poucos carros velozes pela madrugada pensam em quê? Os seres menores que ganham vida pelos lixos orgânicos, será que eles têm prazer ao ver uma mão depositando resíduo no lugar por onde já circulam? E o São Miguel Arcanjo que mantenho à minha esquerda, como será que ele reage a cada erro que cometo?
Errar é humano. Poxa, que grande maravilha, criamos até desculpa pelas nossas atitudes mais sórdidas. Mas tudo bem, nós pensamos não é, o que mais há de pensar além de nós? Somos do progresso, das construções que unem beleza e praticidade, conhecemos gente nova e perguntamos “o que você faz da vida? ” Quando o que importa mesmo é “o que você é? ” Ou “o que você está? ”. Sempre em tom prepotente, seguimos dando voz à nossa máquina tão inteligente capaz de tanta coisa, mas veja só, não controlamos pesadelo.
Tratamos de crescer, levando e dando na cara do mundo o tempo todo. Logo abandonamos – ou devemos – a inocência da infância e a rebeldia da adolescência e amadurecemos. Só que aí, como pensamos, e muito, nosso amadurecimento não dá conta de nós, há que se trocar maconha por frontal ou qualquer outra droga no auxilio da calma, há que se acordar cedo e seguir atropelando as demais existências pelas calçadas carregando sempre muita coisa e usando óculos que mais nos mascaram que nos protegem do sol. Tememos o sol.
Humano para ser humano tem de pensar, tem de ter medo em prol de uma vida de mais anos. Compramos camisinha, criamos grupos de risco, temos mais farmácias que consultórios médicos, não é estranho? E esquecemos, claro, para evitar que a dor nas costas seja pior. Esquecemos de nos cumprimentar, esquecemos crimes, esquecemos nossa infalível lista de atividades do dia. Testamos drogas em ratos. Simulamos.
Se é válido, é por ter sido bem planejado, bem pensado, elaborado. A grande questão da nossa simulação é por ela ser dissimulada, como é o nosso próprio corpo, aquele que falei no início do texto. Adoramos dizer sobre o amadurecimento, mas quando é que a gente passa? Sim, o corpo eu sei que é quando morre, mas é o resto? Nós achamos mesmo que nosso amadurecimento é eterno?  E invejamos os elefantes, pois pensamos. E por pensar, acabo aqui, que tudo necessita de conclusão, para ser obra de gente.

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