terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Covardia

Covarde é esse conjunto de órgãos que carinhosamente chamamos de nós, esse bando de átomos que se diferencia dos outros por que pensa, e justamente por pensar cria da pior maneira. Tem instinto que é só instinto, humano não, age por instinto pensando pois tudo nesse corpo clama por razão. Suas células pensam tanto que chegam a criar doenças auto degenerativas. Esse organismo covarde que me faz acordar de pesadelo à uma e meia da manhã num dos poucos dias que eu fui dormir no horário dos corretos, por volta das dez da noite, e me faz escrever qualquer coisa que sirva na falta de analista.
Eu falo de um bando órgãos, agressivamente, com repulsa e me esqueço por mera tolice que sou dependente disso. Veja que interessante, a covardia é tão grande que no auge do pensamento queremos dominar nossa própria experiência carnal. Se fizesse contagem das minhas palavras saia muito mais raiva que amor, se fizesse contagem dos meus sentimentos saia muito mais amor que raiva. E eu ferozmente sento numa cadeira e olho para um pôster da Frida Kahlo buscando solução sem ter problema de fato.
E o cão que ladra pelos sacos plásticos da minha rua a essa hora, o que será que ele pensa? Será que ele pensa? E o barulho dos poucos carros velozes pela madrugada pensam em quê? Os seres menores que ganham vida pelos lixos orgânicos, será que eles têm prazer ao ver uma mão depositando resíduo no lugar por onde já circulam? E o São Miguel Arcanjo que mantenho à minha esquerda, como será que ele reage a cada erro que cometo?
Errar é humano. Poxa, que grande maravilha, criamos até desculpa pelas nossas atitudes mais sórdidas. Mas tudo bem, nós pensamos não é, o que mais há de pensar além de nós? Somos do progresso, das construções que unem beleza e praticidade, conhecemos gente nova e perguntamos “o que você faz da vida? ” Quando o que importa mesmo é “o que você é? ” Ou “o que você está? ”. Sempre em tom prepotente, seguimos dando voz à nossa máquina tão inteligente capaz de tanta coisa, mas veja só, não controlamos pesadelo.
Tratamos de crescer, levando e dando na cara do mundo o tempo todo. Logo abandonamos – ou devemos – a inocência da infância e a rebeldia da adolescência e amadurecemos. Só que aí, como pensamos, e muito, nosso amadurecimento não dá conta de nós, há que se trocar maconha por frontal ou qualquer outra droga no auxilio da calma, há que se acordar cedo e seguir atropelando as demais existências pelas calçadas carregando sempre muita coisa e usando óculos que mais nos mascaram que nos protegem do sol. Tememos o sol.
Humano para ser humano tem de pensar, tem de ter medo em prol de uma vida de mais anos. Compramos camisinha, criamos grupos de risco, temos mais farmácias que consultórios médicos, não é estranho? E esquecemos, claro, para evitar que a dor nas costas seja pior. Esquecemos de nos cumprimentar, esquecemos crimes, esquecemos nossa infalível lista de atividades do dia. Testamos drogas em ratos. Simulamos.
Se é válido, é por ter sido bem planejado, bem pensado, elaborado. A grande questão da nossa simulação é por ela ser dissimulada, como é o nosso próprio corpo, aquele que falei no início do texto. Adoramos dizer sobre o amadurecimento, mas quando é que a gente passa? Sim, o corpo eu sei que é quando morre, mas é o resto? Nós achamos mesmo que nosso amadurecimento é eterno?  E invejamos os elefantes, pois pensamos. E por pensar, acabo aqui, que tudo necessita de conclusão, para ser obra de gente.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

salvação

o serviço de uma casa
salva
a pessoa dessa casa da loucura da rua

a rua salva a pessoa
de um serviço
de uma casa louca

uma casa louca
há de salvar essa pessoa do egoísmo
que senão essa loucura é falsa

se falsa for toda loucura
a vida é mesmo uma porção de sub-seres
consumidores da carne humana

domingo, 29 de novembro de 2015

A velhice e a bebida

Dois mais velhos, em delírio embriagado
Porta de casa, em frente dum bar
Um casal que logo após seguia sem equilíbrio pela rua
Ela, senhora negra, vestido rosa
Ele, senhor grisalho, camisa de time
Aprontavam um conversê alucinado com o dono do boteco
Entre tentativas de segurar latas e sacolas e o próprio corpo, se beijaram
A mulher de força ancestral soltou um ''mas eu amo meu velho, me beija''
Beijo de língua, nada de selinho
Eu na minha janela já não mais me sentia um solitário de domingo
E se foram
Que barato, que delicia
Se não fosse a paixão e o amor a gente já tinha caído a muito
Eu descobri isso observando o casal

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Hoje não tem poesia

A gente precisa de menos espelho. A gente precisa de menos opinião sobre aquilo que usamos e somos. Maluco vem logo dizendo: dança no ritmo, bate palma no ritmo, canta no ritmo ou então fica quieto. Mas é lógico, a inadequação da raiva naqueles que passam horas e horas se gastando em busca de se adequar. Se for pra eu ganhar dinheiro, me adéquo sim, não sou bobo de passar perrengue só pra ser legal. Mas se não, mon amour, eu faço o que eu bem quiser. A gente precisa se olhar menos no espelho. A gente precisa de menos gente olhando pra gente, bom seria se nossos olhos só atraíssem aqueles que nos interessam. E a gente, precisa de menos espelho. 
Alguém sempre vai tentar lhe intimidar usando das ironias bestas dos que se apoiam no equilíbrio. Não passa muita maquiagem, mas também não saia assim parecendo zumbi. Não use roupas curtas, mas também evite cortes retos, esses são de ''caminhoneiras''. Não fale de manhã, mas deixar de dar bom dia é mal educado. Aquele professor ou professora pra te humilhar das maneiras mais esdruxulas possíveis desde o pré até a universidade, a diferença é que agora ao invés de chorar eu já vou logo me defendendo. Ah mas é claro, os pais dele são separados. Ah mas é claro, ele só usa roupa cara. Ah mas é claro, a mãe não ajuda o menino como é que ele vai ir bem no fim do bimestre. Ah mas é claro, só vive com mulher. Ah mas é claro, ele é do interior.
A gente precisa de menos espelho. Precisa de menos conceito. Precisa de deixar a língua reservada pra momentos específicos. Olhar pra barriga de cabeça baixa, sentado, e ver cada dobra, e se sentir normal. Olhar a perna e ver cada celulite e estria e se sentir normal. No espelho é fácil, murcha a barriga, corrige a postura, fica no melhor ângulo e pronto. Numa imagem então mais fácil ainda, põe um filtro e tá lá tudo bonito.
A gente precisa de menos elogios como desculpa: você é de berço. Fiz uma promessa a mim mesmo que a próxima vez que ouvir isso vou atirar esse berço que eu nem sei mais qual é contra a pessoa. Se ser de berço representa ser de classe média, que bela merda, é o que sou. Agora, ser de berço pressupõe gente menor e ninguém é menor que eu. Odeio esse tipo de elogio, essa coisa pra manter o social.
Eu ultimamente dei um corte na minha vida noturna por motivos financeiros e por que também meu corpo cansou de sorrir pra desafetos, levar foras e ter ressacas. Cansei de cerveja ruim, gente com ataques sinceros alcoólicos e fila de banheiro. 
Portanto tenho ficado muito em casa. Momento de reflexão. Daí quero sair pelo mundo dando na cara de todo mundo que já me vez mal, não sei lidar muito bem com meu passado, devo assumir. Mas tenho vontade também de recuperar gente que eu deixei escapar por mera distração. E no fim fico calado, eu sei que o acaso fará tudo com beleza maior. 
E de presente de Natal eu queria que vocês que crescem e ficam pessoas rancorosas parecem de contar pras crianças que Papai Noel não existe, tem tanta coisa mais interessante pra desmentir. Falem pra eles que aqueles dois caras ou duas mulheres que foram na festa de ontem juntos não são muito amigos mas sim um casal. Um casal, esse lance de amenizar as coisas dizendo companheiro é um absurdo, amor não é partido político. Ou então, falem pra eles que a empregada é uma funcionária e não a ''tia, que e quase da família''. E deixem o Papai Noel que ninguém vai sair por aí destilando preconceito por acreditar no Papai Noel.

domingo, 22 de novembro de 2015

Numa casa tem toalha sobre a mesa
Um armário guarda coisas doces: sobremesa
Os panetones dos mercados me incomodam
Deixei de participar de amigos secretos a algum tempo
Eu guardo segredo quando não me contam
Se é noite o suor diminui
Carrego muito peso mas não de cruz
Voltei a meditar depois de um tempo
Eu sempre volto
Se é labirinto eu acho saída
Durante um tempo voltava
Sina boba de querer mostrar caminho pra outras pessoas
Não sei quanto vale a vida
Aos poucos vou aprendendo o que ela não vale
Mas dizer não digo
Criei esperteza e faço como bicho
Observo distante a vida dos meus
Tristeza só me permito se o caso é de ser triste
No teatro dessa casa sobremesa e armário
Ninguém diz nada 
Todos tratam logo de entender
Caminho nunca é o mesmo pra mais de uma pessoa


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

01:40

Uma hora e quarenta de
Tenho aula
Tenho sono
Uma hora e quarenta para
Mexer na cozinha me agrada
Deitar e assistir
O nada
Depois
Um não sei quanto tempo
Vida devia vir com direção automática

terça-feira, 20 de outubro de 2015

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Cicatriz

Meu corpo mapa
Meu corpo escolha
Se sou humano transformo a natureza
Se sou humano geografia imperfeita
Domino a natureza
Meu corpo fera cura deixa marca
Nasci com pintinhas
Caí, sinal na testa
Caí, sinal no lado direito da barriga
Caí, me deu vontade de fazer tatuagem
Excesso da falta de tudo
Excesso de mim
Me lanço me caso não caso
Meu corpo mapa
Odeia odeio a boniteza escarada pelos outros seres
Sou imperfeita
Não tenho cura culpa receio

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

palavra rela na alma
palavra remela na cara
palavra rebela na vala
os desejos ocultos
a culpa cristã é a culpa de Cristo?
palavra incógnita
será que se tirar palavra ruim
sentimento some também?

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

SInuca

Se nunca avanço
Sinuca, subo em cima
Não jogo, me lanço
Se bebo, não adianta
Não danço
Me senta pra descansar
Me deita pra descansar
Mesa de sinuca de bar

Sol

Se sou do sol
Se sou do sul
De Minas Gerais
Se sou sucinto
Se sinto, sente
Se roo gente
Se rio, dente

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Harmonio

Eu quero abraçar
É madrugada
O corpo sua
O corpo, sua
É madrugada
A pele nua
Apele numa

Cenário

Tudo acabará em pizza
Você pela metade sabor que arde
Você pela manhã em temperatura ambiente
Depois no banheiro acabará também
Em banho, você em pele nua
Você, seus pelos cor de me possua
Acabará também no quarto
Você em tons matinais de recém acordado
Você por todos os lados, cor de selva
Acabará por fim comigo
Quando desinibido vier lamber meu umbigo
Quando o perigo não alcançar esse abrigo
Mas tudo acabará em pizza
Agora sou eu por essa parte
Agora é minha alma ferida em cor de escarlate
Você me mandando para qualquer parte
Depois há de ter coragem de dizer: saudade
E eu vou me imaginar bobagem

Outubro

Outubro é um mês estranho
Como todo o resto do ano
Outubro é mais, tem mistério
Se eu paro um livro, procuro um lero
Se eu paro a vida, procuro motor
Outubro gera receio, de Libra
Outubro já é ano que vem

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Não lugar

Eu não consigo dormir
Dor de estar só
Eu quis ligar e não havia sinal
Eu quis te amar e já era tarde
Era tão tarde e eu via filme de romance
Era tão tarde e eu não dormia
Sentia incomodo
Não conseguir dormir é crueldade
Deitar a cabeça no travesseiro
Deitar o corpo e se ajeitar e não acalmar
A cabeça dói um pouco
E é uma coisa ruim
Não saber qual é o seu lugar
E é uma coisa ruim
Não há escolha aqui
São quase duas horas e tudo está quieto
São quase duas e eu a mil
São quase duas e eu o resto

*daquelas sensações ruins, 21 de setembro de 2015

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Café com leite

É necessário quebrar os galhos
Beirar atalhos é necessário
Falar das plantas, fazer a janta
Rimar não é necessário
Rimar é o contrário
Remar depois dos vinte é quase obrigatório
E é difícil rimar se a causa for remar
Pode também ser necessário
Pode o contrário
O caso é que na vida é só cenário
E é bom tratar de não virar otário

* feita em 23 de setembro de 2015

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Calça atarracada

O choro é o que me mantem vivo
O riso é só estar vivo
Sorrir é como estar comendo brigadeiro
Sorrir é como estar enrolado num cobertor
Chorar é outra história
Chorar é a calça repartindo a bunda
Chorar é o desconforto de estar vivo
É quando eu produzo lágrima que sei que eu existo
É nesse processo louco que eu entendo o resto
Me coloca para fora de casa
Eu calço o sapato e vou andejar
Se sorrio eu meto a cara no celular
Faço sefie edito posto
Quero curtida elogio coração
Quando eu choro corro prum conhecido
Aí é abraço e compaixão

* do dia 12 de setembro de 2015, um dia depois faxinei a casa ouvindo Byork

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Essas pessoas que dormem cedo
Essas pessoas que acordam e vão fazer a feira
Essa gente que consegue se satisfazer consigo mesma
Eu não, eu vaso pela borda da existência
Eu tomo vinho e nem lembro que o padre toma
Às vezes minha pele sua sentimentalismo barato
Eu ando de óculos escuros para esconder ressaca
Não ando na rua dizendo bom dia
Não entro nas bancas de flores, desconheço o nome das flores
Tem noites que eu deito e levanto de fome
Levanto também de pesadelo
Se alguém me conta da vida amorosa
Se alguém me conta da vida, orgulhosa
Não olho nos olhos, procuro uma fuga
Eu volto pra casa meio bambo se eu lembro que eu tenho vida amorosa
Eu volto pra casa lembrando que eu tenho vida se alguém me conta de sua vida amorosa

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Declínio cinza

Cai, cai balão
Cai a chuva num quintal
Cai uma gente num degrau
Cai um para-quedas noutra onda

Cai, cai balão
Cai a água, molha a mão
Cai um cílios, cega a vista
Cai do armário um lampião

Cai, cai balão
Cai o índice de aprovação
Cai do bolso uma moeda
Cai do cérebro uma idéia

A dinâmica do cinza
A dinâmica do santo
Briga, empurra móvel
Cai balão, trovão e solidão

* do dia 07 de setembro de 2015

Lacticínio

O leite que se farta do alumínio do fogão
O leite adoçado com chá de erva doce
Deramado, fermentado, processado
O leite que às vezes eu tomo para me acalmar
Eu não me acalmo, não
Corro, pego pano, limpo fogão
Movimento inconsciente
Minha mão, minha língua
Queimo junto com minha calma

* poema do dia 07 de setembro de 2015

sábado, 5 de setembro de 2015

Nome

Meu nome é Caio e às vezes eu danço
Meu nome é Caio e às vezes eu canso
Às vezes meu nome cai
Tropeço no ar
Derrubo café numa roupa
Mas me limpo depois
Me ergo também
A coluna fica um pouco dolorida
Mas meu nome é pequeno
Não carece derrapar em apelido

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Janela

Quando a janela bate
A vela apaga
Cortina encolhe
O corpo acorda

Quando a janela bate
Bate junto uma saudade
Vem o vento e invade
Menino fica cheio de vontade

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Egotrip (ou Aceitando alegrias)

O bom humor te afeta né
Cê acorda, ele tá lá
Invande a casa e cara
Chega pela frente
Cê se faz de difícil
Diz que acabou de acordar
Logo depois abre a guarda
Aí vem a vida dos outros
Tanta sofrendo
Você bem humorado
Egoísmo
Se for, nem ligo

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Cegueira

Tem gente que fica de luto
Bota preto na roupa, na janela
Mas hoje deixaram invisível uma galera
Na maior cidade do país
A discussão de gênero nas escolas
Foi barrada em votação
Diz que é coisa de instituição
Tão em defesa da família
E um tanto de gente morrendo
Se matando, se esguelando
Eu tenho medo dessa família

* LGBT's existem, entendam!

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Cômodo

Um cômodo vazio
Muitas ideias na cabeça
Um cômodo ocupado por demais
Outras muitas ideias na cabeça
Um cômodo vazio é silêncio
Vem aquilo que é de dentro
Um cômodo ocupado por demais
Surge aquilo que causa sufoco
É como estação de metrô às seis
Há que se decorar o incômodo
Jogar fora o que não convém
Mesmo, a coisa física e a coisa mental

* delírios de uma pessoa tarada por ambientes preenchidos sentido em 01 de setembro de 2015

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Deve ser triste ser rato
Eu tenho medo de rato
Ser gente não é triste, não
Triste é ser um rato
Ser gente é interessante
Transformar gato em elogio
Vaca e cachorro em depreciação
Ser gente é meio vergonhoso
Mas triste não é
O que é triste é ter medo
E a gente tem
Um bebê nasce e já lhe socam neuroses
Lhe enfiam goela a baixo medo, sexualidade, expectativa
Alguém vai dizer que dinheiro é bom
Outra pessoa vai ensinar a desconfiar de todos os outros seres humanos
E aí um dia a pessoa cresce e acha bacana trapassear
Que é só pra girar a roda: nunca confiar

domingo, 30 de agosto de 2015

Problema

O problema é que é domingo
É essa cabeça esquecida
A dor no corpo
O porre do dia anterior
Ou a falta dele
O problema é essa falta de gente
O problema é que é domingo
Uma criança na rua faz birra
A culpa é da publicidade
A culpa sempre é da publicidade
Maluco ainda trabalha nesse conceito
A culpa
Ela não existe
Nem o pecado
Nem o problema ser domingo
O problema é teu contigo
O problema é esse umbigo

sábado, 29 de agosto de 2015

Não samba

Sabe samba?
Não sabe sambar!
Não se ajeita no esquema da dança
O cabelo não faz trança
É brasileiro mesmo assim
Não tem orgulho, não
É brasileiro
Mas prefere ser mineiro

* vinculo de Estado feito em 29 de agosto de 2015

Hoje

Aquário é o meu signo
O ascendente coube a sagitário
Lua em Ouro Preto
Se tivesse como foto eu tinha tirado
Ah, o dia de hoje

Cê não

Cê não tem que ser
Cê não tem que se
Cê não tem que si
Cê não tem que nada
Que nada
Cê tem sim
Cê tem que se amar
Cê tem que respeitar
Cê tem que se mudar
Não é uma boa morrer sendo igual

* poema da abreviação mais comum clichê amor da literatura brasileira feito hoje mesmo

Mim

Egocêntrico, autoritário
Falo de mim mais que de tudo
Falo de mim em dó maior
Auto-imune a crueza
Não sei se amor próprio 
Egoísta
Ex pseudo socialista
Adoro lista
De compra, de música
E de defeitos
Curto defeitos
Os dos outros me surtem efeitos
De falar sobre eu
De inventar outro eu

* de 29 de agosto de 2015

Querência

Queria gostar mais das manhãs
Queria gostar mais de sol
Menos de sal
Queria gostar de esportes
Não de você
Ou sim
Queria gostar muito mais de você
E de mim
E menos de açúcar
E bem menos de televisão aberta
Que eu gosto mais do que gosto de você
É, não gosto tanto de você
Queria que o destino fosse gostoso
Como...
E caso seja que leve em conta meu gosto

*bipolaridade sentimental pela pessoa sentida em 28 de agosto de 2015

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Noturno

De noite eu vou para o bar
Procuro teu rosto pelo caminho
Nos becos 
Nas curvas do centro
Procuro teu beijo no vento
Não tenho ciúmes
E sei mentir

* devaneio adolescente de 17 de outubro de 2013 para pessoa inexistente

Porto

No cais do porto
O corpo
O corpo tomando vinho
Do Porto
O porto, seguro
Seguro, o corpo morreu de velho
No cais

Tomando vinho do Porto

* de 10 de março de 2015

Maria

Maria nasceu Maria
Neta de Maria que nasceu Maria
Filha de Maria que nasceu neta de Maria
Maria, dizem, vai ser mãe um dia
Mas Maria não quer ser como as outras Marias
Maria não quer se casar
Maria não quer parir
Maria tem vocação para tia
Maria fez uma tatuagem
Disseram: Ave Maria!
Um dia Maria encontrou uma Maria
E percebeu então que namoraria
Disseram: Ave Maria!
Maria casou com Maria
Maria que não queria ter filha adotou um menino
Maria mais Maria são mães de José
José hoje namora uma moça chamada Maria
José se pergunta: como é que dizem que influência?

José conclui: Se a coisa vem da biologia!

* poema - amor feito em 17 de dezembro de 2014
Odeio títulos
Todos
Inclusive os títulos de texto
Adoro textos
E os escrevo
Mas títulos me incomodam
Me deixam agoniado
Mais duas xícaras de café, por favor
Quem sabe agora títulos eu faça
E nada
De noite, talvez, uma taça de vinho e... 
Títulos!
Mas não, não sei escrever títulos
E se, quem sabe, fazendo o corpo do texto primeiro? 
Nem assim, nem assado
Odeio títulos

* feito em 11 de janeiro de 2014

Resumo de notíciarios

Violência
Vielas imundas de gente e insetos
Vivendo da sorte do gato de sete vidas sem ser gato
Vexame de noite na rua de dia pele nua carne crua
Videntes clichês
Vísceras descosturadas
Viagem em transe
Vigários pecando

Vidraças quebradas

* do dia 10 de março de 2015

Maldade

Vingança vazia
Minha pessoa vazia
Quero ver tu se ferrar
Das coisas ruins me livrar
Mas repito, quero ver tu se ferrar
Que dia

* devaneio de 22 de maio de 2015

Super ação

De noite acordado sem internet
Tanto tempo procurando quitinete
O preço do vinho é menor que o frete
Não há linho que concerte
Tomara que o governo acerte
Nem mais conta que aperte
Encontrei apartamento dentro do preço
Minha alegria à todo santo ofereço
Pelos tempos recentes, pouco apreço
Mas mal não mais padeço
Parece até que é coisa de endereço
Pensando bem, ótimo nem no começo
Agora os olhos mantenho aberto
Canalhice não quero por perto
Dessa vez eu sei que acerto
Até lembrei de uma música do Roberto
Uma coisa sei que é certo
Canalhice comigo, fica esperto

* escrito em 14 de julho de 2015

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Hábito

Anoto coisas
Às vezes conta e agência bancária
Às vezes palavra bonita
Anoto um número de telefone
Tem vez que nome
Remédio para dor de cabeça
De dia anoto para não esquecer
À noite anoto para poder esquecer
Não anoto afeto
Afeto eu noto
E fico quieto

* escrito em 14 de agosto de 2015

Inadequado

Eu sou tão inadequado
Eu sou tão inadequado
Mas não quieto
Eu sou tão inadequado
Gosto de Freud
Odeio fado

* poema do dia 18 de agosto de 2015

Bomba

As primeiras explosões
O peso do mundo nas costas
Estouro
Vermelhidão
Estresse em amplidão

* poema do dia 27 de agosto de 2015

Sou do tipo


Sou do tipo que se ferra
Anemia, corte na testa, joelho ralado
Eu já tive
Enxaqueca e insônia tenho sempre
Pertenço à classe dos estrepados
Eu rasgo a roupa de tanto uso
Eu roou a unha
Eu me estrago
Às vezes eu trago bebida
Sou desses que perdem a hora
Que vivem longe da família
Sempre alguém me para na rua
Me pede informação
Logo comigo que detesto direção

* poema do dia 27 de agosto de 2015

Difícil

Uma tempestade
Sou difícil de engolir
De noite não durmo
Tomo café extra - forte
Não meço palavras
Acho passarinho bonito
Se alguém fala omito
Pareço, às vezes, trovão
Recito palavrão
Me apaixono
De amar, não gosto
Eu não me encaixo
Nem tento, acho
Tenho preguiça de bicho
Meu papo é bom
Mas nunca entra no tom
Tenho preguiça de cotidiano
Gosto de gente
Não de muita gente
Gosto de solidão

* poema do dia 27 de agosto de 2015

Esquisito

Faço poesias
Quero dizer: choro todos os dias
Não, não choro todos os dias
Quase choro todos os dias
Quase rio
Quase cachoeira
Vezes cai um litro de água pelo meu rosto
Vezes a boca escancara
Sorriso esquisito
Faço poesias
Não como carne
Não adoço café
Sou esquisito
Todos os dias eu quase choro
Faço poesias
Não todos os dias
Nem todas as rimas

*  poema do dia 27 de agosto de 2015