sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Hoje não tem poesia

A gente precisa de menos espelho. A gente precisa de menos opinião sobre aquilo que usamos e somos. Maluco vem logo dizendo: dança no ritmo, bate palma no ritmo, canta no ritmo ou então fica quieto. Mas é lógico, a inadequação da raiva naqueles que passam horas e horas se gastando em busca de se adequar. Se for pra eu ganhar dinheiro, me adéquo sim, não sou bobo de passar perrengue só pra ser legal. Mas se não, mon amour, eu faço o que eu bem quiser. A gente precisa se olhar menos no espelho. A gente precisa de menos gente olhando pra gente, bom seria se nossos olhos só atraíssem aqueles que nos interessam. E a gente, precisa de menos espelho. 
Alguém sempre vai tentar lhe intimidar usando das ironias bestas dos que se apoiam no equilíbrio. Não passa muita maquiagem, mas também não saia assim parecendo zumbi. Não use roupas curtas, mas também evite cortes retos, esses são de ''caminhoneiras''. Não fale de manhã, mas deixar de dar bom dia é mal educado. Aquele professor ou professora pra te humilhar das maneiras mais esdruxulas possíveis desde o pré até a universidade, a diferença é que agora ao invés de chorar eu já vou logo me defendendo. Ah mas é claro, os pais dele são separados. Ah mas é claro, ele só usa roupa cara. Ah mas é claro, a mãe não ajuda o menino como é que ele vai ir bem no fim do bimestre. Ah mas é claro, só vive com mulher. Ah mas é claro, ele é do interior.
A gente precisa de menos espelho. Precisa de menos conceito. Precisa de deixar a língua reservada pra momentos específicos. Olhar pra barriga de cabeça baixa, sentado, e ver cada dobra, e se sentir normal. Olhar a perna e ver cada celulite e estria e se sentir normal. No espelho é fácil, murcha a barriga, corrige a postura, fica no melhor ângulo e pronto. Numa imagem então mais fácil ainda, põe um filtro e tá lá tudo bonito.
A gente precisa de menos elogios como desculpa: você é de berço. Fiz uma promessa a mim mesmo que a próxima vez que ouvir isso vou atirar esse berço que eu nem sei mais qual é contra a pessoa. Se ser de berço representa ser de classe média, que bela merda, é o que sou. Agora, ser de berço pressupõe gente menor e ninguém é menor que eu. Odeio esse tipo de elogio, essa coisa pra manter o social.
Eu ultimamente dei um corte na minha vida noturna por motivos financeiros e por que também meu corpo cansou de sorrir pra desafetos, levar foras e ter ressacas. Cansei de cerveja ruim, gente com ataques sinceros alcoólicos e fila de banheiro. 
Portanto tenho ficado muito em casa. Momento de reflexão. Daí quero sair pelo mundo dando na cara de todo mundo que já me vez mal, não sei lidar muito bem com meu passado, devo assumir. Mas tenho vontade também de recuperar gente que eu deixei escapar por mera distração. E no fim fico calado, eu sei que o acaso fará tudo com beleza maior. 
E de presente de Natal eu queria que vocês que crescem e ficam pessoas rancorosas parecem de contar pras crianças que Papai Noel não existe, tem tanta coisa mais interessante pra desmentir. Falem pra eles que aqueles dois caras ou duas mulheres que foram na festa de ontem juntos não são muito amigos mas sim um casal. Um casal, esse lance de amenizar as coisas dizendo companheiro é um absurdo, amor não é partido político. Ou então, falem pra eles que a empregada é uma funcionária e não a ''tia, que e quase da família''. E deixem o Papai Noel que ninguém vai sair por aí destilando preconceito por acreditar no Papai Noel.

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