Era muito novo quando entendi que casa é coração. Não me lembro de fato, porém parece que de alguma forma, quando no íntimo do íntimo vou buscar, minha lembrança é de que eu sempre soube disso. Tenho a impressão que cortado e enterrado o cordão umbilical eu entendi que casa é coração, às vezes é beijo também, noutras abraço e vez em quando é concreto, tijolo e janela. Porta. Fachada.
Dois anos atrás eu me mudava para cá, Mariana, jornalismo, uma fase nova, as certezas ficaram do lado de lá da Fernão Dias. Mais de 300 quilômetros se fizeram necessários para entender que, quanto mais longe de lá, de Congonhal, de Pouso Alegre, da roça, do sul de Minas, montanhas e amores, mais de lá eu sou, mais do mato eu fico, mais café e doce de leite, aprendi até a gostar de pamonha e bolo de milho. Fogão à lenha. Chico Buarque no aparelho de som. Viola caipira.
Casa é coração, sempre foi. Pais separados, me lembro além daquela casa que já anda desfigurada, de levantar da cama de minha mãe e ir assistir a fita cassete dos Rolling Stones no colchão da sala de tv com meu pai, um degrau mais baixo. Um dia cortei a testa, cicatriz. Avós, bisavós, a casa dos tios e tias, que saudade dos que já se foram. Algumas paredes se perderam entre o pó da demolição, e guardo o cheiro de cada cozinha em dia de festa. Domingo, uma leve impressão de que quando uma família tem crianças, os conflitos somem um pouco.
Agora, outra mudança de casa, em Mariana foram muitas, e mais dois anos nesse lugar, espero. Minha alma pede férias incessantemente, uma vontade imensa, intensa, de rever os meus. Casa é coração. Minha mãe me contou uma vez que muito criança eu já fazia a mala e ia dar um tempo, frequentar outras casas-corações. Cresci pensando que a independência me possibilitaria fazer isso com mais frequência, mas independência pede responsabilidade. E nessa bola chamada Terra, sacana que é, a gente fica parado criando responsabilidade enquanto ela faz graça levando o sol pro Japão e trazendo de volta, rodando.
E casa que é coração, se tirar o c fica asa. Asa é coração. Por isso, não sinto saudade das fachadas e paredes, carrego elas comigo. Poema é mais que rima e verso, é estado d'alma. Eu arrumo minha história numas caixas. Ela vaza, é claro. E no entanto, só queria mesmo arrumar uma pequena mala e voltar pro sul de Minas, a sala com piano da minha vó, os assuntos da minha vó, da minha outra vó o colo e os cuidados lá da infância. O acaso é tão irônico que hoje eu faço mala e vou dar tempo, lá de onde saí tantas vezes, mochila e sorriso de criança. Depois volto, massa de pão de queijo, e às vezes vinho.
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